Em discussões informais e em fóruns virtuais, frequentemente se escuta esta pergunta após o teísta fazer uma breve explicação do argumento do design ou da inferência à melhor explicação1. Às vezes esse questionamento pode até mesmo vir acompanhado de uma risadinha sarcástica, posto no debate com um ar de triunfo, como se fosse uma questão profunda e irrespondível, uma punhalada no coração do teísmo. Arrisco dizer que, junto com a falácia do espantalho2, essa perguntinha é o estratagema que mais se ouve da parte dos descrentes militantes quando querem demolir a argumentação do apologista. Essa pergunta realmente seria um golpe devastador – se e somente se ela tivesse algum valor argumentativo maior do que bagaço de cana.
O astrônomo deísta Fred Hoyle certa vez disse que a probabilidade do surgimento espontâneo de uma célula a partir de reações químicas aleatórias é a mesma de que um Boeing 747 surgisse pela passagem de um tornado num ferro-velho3. Richard Dawkins criticou tal argumento, afirmando que Hoyle confundiu “acaso” com “seleção natural”. À parte do pequeno fato de que a seleção natural é um processo relativo à biologia e não à química, agindo sobre organismos vivos dotados de um código genético passível de mutações, o biólogo afirma em seu best-seller “Deus, um Delírio” que Deus é o “747 definitivo”, pois “por mais estatisticamente improvável que for a entidade que se queira explicar através da invocação de um designer, o próprio designer tem de ser no mínimo tão improvável quanto ela. Deus é o Boeing 747 Definitivo.”4
Então, onde está a falácia nessa pergunta?
Primeiro: para reconhecer que uma explicação é a melhor, não é necessário ter uma explicação da explicação. Conforme o teólogo e filósofo William L. Craig salienta: “Se arqueólogos que estivessem cavando a terra descobrissem coisas que se parecem com pontas da flecha e cabeças de machadinhas e fragmentos de cerâmica, eles seriam justificados deduzindo que estes artefatos não são o resultado de uma possibilidade de sedimentação e metamorfose, mas produtos de algum grupo desconhecido de pessoas, embora eles tivessem nenhuma explicação de quem estas pessoas eram ou de onde elas vieram. Semelhantemente, se astronautas encontrassem uma pilha de máquinas na parte de trás da lua, eles estariam justificados deduzindo que era o produto de agentes inteligentes, extraterrestres, até mesmo se eles não tivessem nenhuma idéia do que estes agentes extraterrestres eram ou como eles chegaram lá. Para reconhecer uma explicação como a melhor, não é necessário poder explicar a explicação. Na realidade, requerendo assim conduziria a um infinito regresso de explicações, de forma que nada poderia ser explicado e ciência seria destruída!”5 (itálico meu).
Segundo: apenas coisas que começam a existir precisam de uma causa. O filósofo neo-ateu Daniel Dennet pergunta, em seu livro quebrando o encanto, “O que causou Deus?”6 A questão é que nenhum teísta jamais racionalmente afirmou que “tudo tem um causa” ou que “Deus autocausou-se”- até porque Deus é, a priori e por definição, atemporal, eterno e imutável, logo não teve um início e não precisa de uma causa, simplesmente é7. Várias passagens bíblicas atestam essa afirmação, vide Isaías 40:28, Romanos 16:26 e 1 Timóteo 1:17. Ademais, “o Ser infinito já foi demonstrado desde Parmênides, e aqui demonstramos da nossa forma: ou há algo, ou não há nada. Se nada há, nada se questiona, logo algo há, algo é. A este algo, a esta positividade, a esta estabilidade, a metafísica chama de ser. Ou o ser é finito e contingente ou é infinito e necessário. Se é finito e contingente, houve um tempo em que nada houve. Mas do nada absoluto nada pode provir, porque nada não há, o nada não afirma nada, não tem positividade. Logo, o ser é infinito e necessário. Este ser infinito e necessário é o Deus cristão.”8
Terceiro, em específico para o “argumento” dawkinista: Deus é uma entidade notavelmente simples. “O engano fundamental de Dawkins mente na sua suposição de que um projetista divino é uma entidade comparável em complexidade com o universo. (...) Como uma entidade não-física, uma mente não está composta de partes e suas propriedades salientes, como autoconsciência, racionalidade e volição, são essenciais a ela. Em contraste com o universo contingente e matizado com todas suas quantidades inexplicáveis e constantes, uma mente divina é de modo surpreendente simples. Certamente tal mente pode ter idéias complexas - pode estar pensando, por exemplo, em cálculo infinitesimal, mas a própria mente é uma entidade notavelmente simples. Dawkins confundiu evidentemente as idéias de uma mente que pode, realmente, serem complexas, com uma mente, a qual é uma entidade inacreditavelmente simples. Então, postulando uma mente divina atrás do universo representa um avanço em simplicidade, para tudo que vale.”9
Por fim, logo se vê que essa pergunta é, como argumento, uma completa nulidade. Há de se concordar com o matemático e filósofo John Lennox quando afirma que essa pergunta é absurda: “Se você me pergunta isso (quem criou Deus), significa que você pensa em Deus como algo que foi criado. A maioria de nós cristãos nunca acreditou nisso. Deus é eterno; ele não foi criado, sempre existiu.”10 Quem coloca em debate esta pergunta, como se tivesse algum peso, simplesmente não entendeu o conceito de “Deus”. Isso é, de certa forma, preocupante, pois compreender o significado de termos abstratos que se referem a coisas imateriais não-tangíveis é um dos elementos que nos diferenciam dos animais. Ainda segundo Craig: “É realmente uma questão sem sentido algum. É como ficar quebrando a cabeça filosofando, ‘Qual a causa da Primeira Causa Não-Causada’? (...) Perguntar pela causa de Deus é como ficar perguntando pela esposa de um homem solteiro.”11
Da próxima vez que ouvir este mantra num debate, lembre-se de quão absurda a pergunta é, e a partir daí desenvolva os contra-argumentos sucintamente citados aqui. Contra a sofística dawkinista, nada que um pouco de racionalidade e lógica não resolvam.
1: Usado pelo filósofo Alvin Plantinga.
2: http://criticanarede.com/point.htm
3: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fred_Hoyle
4: DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2007. p. 124
5: CRAIG, William Lane. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3rd ed. Wheaton: Ed. Crossway, 2008. p. 171. Uma exposição desta objeção à pergunta pode ser vista em http://www.youtube.com/watch?v=jnhMmJPnnDo
6: DENNET, Daniel. Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon. New York: Ed. Viking, 2006, p.242
7: http://www.christiancourier.com/articles/673-who-made-god
8: http://refutatio.wordpress.com/2009/10/17/36/
9: http://www.apologia.com.br/?p=24#more-24 à CRAIG, William Lane. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3rd ed. Wheaton: Ed. Crossway, 2008. p. 171-172
10: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090426/not_imp360645,0.php
11: CRAIG, William Lane. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3rd ed. Wheaton: Ed. Crossway, 2008. p. 193
